segunda-feira, 16 de maio de 2011

15- Plauto uma vez escreveu...

“Nada é mais amigo do homem que o amigo na hora certa.”
Tentei falar com a Yasmin nos intervalos entre as aulas, mas foi inútil. Ela disse estar pegando as matérias perdidas e procurando ajuda de monitores. O que verdade, mas, ainda assim, soava como uma desculpa para não estar comigo.
Eu não conhecia aquele lado da Yasmin, tão ressentida. Dez meses de namoro, mas o tempo de convivência e nunca a vi agindo assim. Queria tanto que ela e sua mãe se entendessem que não me dei conta de que a minha pequena atitude em relação a isso poderia ser muito para a Yasmin. Eu não tinha o direito. Yasmin não me queria em sua companhia no hospital para que eu não ficasse com sua mãe e fui estúpido o suficiente para não perceber.
O que tinha acontecido entre as duas eu não fazia ideia e quanto mais pensava nisso mais intrigado ficava e mais tentava ignorar a minha curiosidade.
Yasmin precisava de tempo, eu esperava que fosse isso o suficiente para que me perdoasse. Era hora de respeitar a sua vontade, mesmo contra a minha. Foi o que fiz quando não a procurei pelo restante do dia. E no dia seguinte. E no seguinte a esse. Uma semana já não era tempo o bastante para que ela, pelo menos, voltasse a olhar para mim? Duas semanas e nada.
“Derick...” minha prima me chamou, pronunciando a sua presença.
Eu estava a caminho do dormitório.
“Oi, Sally.”
“Meu Deus, Derick! Você está péssimo! Você e a Yasmin estão me deixando muito preocupada. O que está acontecendo?” suplicou.
“Estraguei tudo. Acho que a Yasmin não vai mesmo me perdoar, mas ainda estou esperando por isso.”
“Vem comigo à pracinha, pra gente poder conversar mais à vontade.”
“Já estou indo deitar, Sally...”
“Para, Derick! Você vai comigo até a pracinha. Você se isolou de todo mundo. Acha que ninguém percebeu? Pelo amor de Deus! A sua sorte é que amo vocês dois demais pra ficar apenas assistindo. Não estou nem aí se estou sendo inconveniente. Vou ficar te enchendo a paciência até que converse comigo, você me conhece...”
“Vamos...”
Segunda-feira não era o ponto alto da semana na praça, então éramos apenas nós dois e as pouquíssimas pessoas que passavam pela rua.
“Eu perguntei a Yasmin, mas ela nunca vai me dizer a verdade. Conheço aquele tom de ‘está tudo bem’, quer dizer que está tudo errado. E você parece um fantasma pelo colégio. Se não tivéssemos clubes em comum, aposto que não te veria.”
Fiquei em silêncio. A dor de não estar com a Yasmin era tudo o que rondava a minha mente.
“Derick, eu sei que quando você não está bem você fica assim... No seu próprio mundo, sei lá.” Fez um gesto.
Pegou as minhas mãos, “Mas você sabe que não vou te julgar. Jamais faria isso. Quero te ajudar.”
“Você não pode.”
“Me diz o que aconteceu. Eu com certeza vou te ajudar, Derick. Eu podia estar fazendo qualquer outra coisa, mas estou aqui, não estou? Foi quando ela ficou aqueles dias em Primavera, não foi?”
“Foi... Eu queria que ela e a sua mãe se entendessem. O relacionamento das duas é tão triste... Insisti que ela retornasse a ligação de sua mãe e eu sabia que ela não queria. Depois ela quis ficar sozinha com o pai no hospital e eu fiquei na sua casa com a sua mãe, em vez de voltar pra cá. Não pensei que fosse algo TÃO ruim, mas ela começou a me evitar pelo celular. Quando voltou... O André desceu do taxi com ela. Ela já me explicou, mas na hora...” Era cansativo falar o que revivi tantas vezes mentalmente.
“André idiota! Também não gosto da Sandra. Ela é muito controladora como mãe e em todo o resto. Yasmin não gosta de falar sobre ela, é difícil saber o que aconteceu. Mas Yasmin é... Você sabe. É difícil atingir essa garota. Se o assunto Sandra é tão evitado assim, acredite, ela tem bons motivos para isso, Derick. Não insista com elas duas. E para o seu bem, fique longe dessa mulher. Não tente entender nem conhecer os motivos. A Yasmin te ama, quando ela se sentir bem, te contará.”
“Vou respeitar isso.” o remorso parecia não ter fim.
“Já se passou bastante tempo... Vocês se falam? Como estão?”
“Não quero cometer o mesmo erro de novo, Sally. Ela não quer falar comigo, vou respeitar.”
“O quê?! Ficou doido?” ela quase gritava.
Olhei assustado.
“Derick! Não me diga que você não tem tentado falar com ela por todo esse tempo, por favor...”
Abaixei meus olhos. Culpado.
Sally fechou os olhos e suspirou, “Se você não estivesse tão miserável eu te bateria. Derick, você está esperando que a Yasmin venha até você? Sério? Andou fumando ou o quê? Me explica a sua lógica, porque não vejo nenhuma.”
“Eu deveria ter insistido? Mas isso só não a deixaria ainda mais irritada?”
“Aí, meu coração frágil... Eu sei que ela é sua primeira namorada e tudo mais, mas tem coisas que simplesmente se sabe, Derick. Se coloca no lugar dela. Você não insiste, o que ela vai pensar? Um pouco de atitude é pedir muito? Cara! Não estou acreditando ainda.”
Ponderei.
“Chega de pensar, meu filho! É capaz de você arrumar mais algum motivo pra ficar sem fazer nada. Cristo! Pega essa porcaria de celular e liga pra ela. Liga até ela atender ou a bateria acabar. Se eu não te conhecesse e não soubesse o quanto ama a Yasmin, juro que pensaria que você quer mesmo que tudo acabe.”
“Eu não estou com o celular.” estava um pouco assustado.
Sally revirou os olhos, “Claro que não está. Tudo para facilitar. Mas eu estou com o meu o que quer dizer que é bom que você faça tudo certo agora, porque ela com certeza vai atender. E quando ouvir a sua voz em vez da minha vai me xingar um bocado mentalmente. Se você estragar isso, vamos ser nós dois na lista negra da Yasmin.”
Ela puxou seu celular do bolso, discou e me entregou.
“Oi, Sally! Não vou comer com vocês hoje, desculpa. Já estou no meu quarto.”
O frio no meu estômago só perdia para o meu coração tentando sair do meu peito. Eu não tinha ideia do que falar. Não conseguia pensar. Era tão bom ouvir a sua voz...
“Fala alguma coisa...” Sally sussurrou impaciente.
“Oi... Yasmin...” engasguei.
Silêncio.
“Derick?” sua voz quase inaudível.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

14– Alexander Pope uma vez escreveu...

“Abençoado é o homem que nada espera, pois ele nunca se decepcionará.”
Já era domingo e eu não era mais capaz de suportar a ansiedade para sentir o gosto daqueles lábios rosados novamente. As horas pareciam não passar e quando finalmente a noite caiu sabia que em pouco tempo ela estaria com seu lindo sorriso na minha frente.
Estava segurando um buquê de flores, encostado em um murinho de um dos prédios do Colégio Elite. O restante do pessoal estava a esperando no refeitório. Já tínhamos planejado tudo.
Ela não fazia ideia, a sua mãe que me falou o horário em que a Yasmin chegaria.
Foram dias difíceis. Yasmin foi urgente em desligar o celular todas as vezes que tentei conversar com ela. Não conhecia seus motivos. Imaginei que quisesse passar o máximo de tempo possível com seu pai. Ela sempre lamentava por ficar pouco tempo com ele.
Um carro parou na entrada principal. Eu podia sentir que era ela. Não vi o modelo ou cor do automóvel. Meu coração tinha parado de funcionar. Minha respiração... Quem lembraria de respirar naquela situação?
Ela desceu do carro sorridente como havia imaginado. Eu podia contar os segundos até que ela ficasse surpresa a me ver. O carro partiu e foi apenas nesse momento que vi aquele rapaz alto ao seu lado. Ele carrega uma mochila nas costas. Yasmin e ele trocavam gargalhadas. Aquele era o André...
Tinha algo de muito errado acontecendo. Não era possível... Senti um nó na garganta. Os dois não me viram e passaram direto para dentro do prédio. Não consegui tirar meus olhos daquele pedaço da rua em que os dois desceram do carro. Senti o buquê escorregar das minhas mãos e esqueci como se movia por algum tempo. Percebi que tinha prendido a respiração só quando o ar voltou a circular abruptadamente.
A forma como a Yasmin me tratou nos últimos dias e depois rindo com o seu ex-namorado? O que ela riscou de sua vida? Que a traiu com sua melhor amiga? O que era aquilo?
Forcei meus pés a me levarem ao dormitório. Precisava ficar sozinho. Dormir apenas. Mas aquela cena não parou de se repetir na minha mente por toda a noite. Eu queria explicações. Não, eu não queria de verdade. Mas eu precisava. Talvez eu estivesse tendo uma reação exagerada. Talvez. Eu precisava acalmar as minhas emoções antes de procurar por qualquer resposta. Desejei que as longas horas da noite fossem o suficiente para isso.
Meu celular estava lotado de mensagens e chamadas não atendidas. Como eu explicaria o que me fez sumir ontem à noite sem soar completamente bobo aos olhos de meus amigos? Eu deveria ter colocado meus lábios nos da Yasmin logo que a vi, sem me importar com a presença do André. Eu tinha certeza que era assim que qualquer um teria agido no meu lugar.
No refeitório pela manhã, antes da primeira aula, avistei a Yasmin na mesma mesa que nossos amigos. Caminhei até eles.
O que mais me surpreendeu em tudo foi estar desconfiando da Yasmin. Ela nunca tinha me dado motivos. A maior parte de mim tinha tanta certeza de que o ocorrido da noite passada não tinha sido nada, que eu havia enfeitado a situação. Mas também tinha aquela pequena parte que me alertava... Um frio cortante na minha espinha.
“Bom dia!”
Talita socou meu braço “É bom que tenha uma ótima explicação, Derick! Porque passamos a noite ontem imaginando que ser sobrenatural poderia ter sido o causador do seu sumiço repentino.”
“É melhor deixarmos eles a sós.” Ricardo sugeriu, levantando-se.
Talita o puxou no mesmo instante, fazendo um baque surdo “Ele que se vire e leve a namorada dele pra conversar em outro lugar. E é bom que seja rápido, porque falta pouco para as aulas começarem.” minha irmã disse duramente.
Yasmin se levantou e, sem me encarar, aproximou-se.
“Vamos para o pátio.” Yasmin.
Durante o caminho não trocamos palavra alguma. Analisei a Yasmin. Estava séria, tensa. Queria poder lhe fazer sorrir. Perdi as forças para questioná-la do que quer que fosse. Um abraço e sentir o cheiro de seus cabelos limpos... Tudo o que precisava.
Minha namorada continuou calada quando chegamos no pátio. Ela esperava que eu falasse. Já estava tão arrependido...
“Eu te vi ontem... Quando você chegou... Com o... Ele... Mas isso não tem mais importância.” as palavras tentaram não sair.
“Eu sei.”
Olhei surpreso “Você me viu?”
“Não. Depois quando não te vi esperando com os outros na cantina. Eles me disseram.”
“Yasmin, me desculpa...”
“Ele apareceu lá em casa, com a desculpa de ver o meu pai. Depois insistiu tentando falar comigo. Desculpou-se novamente por tudo e deixei pra lá. Não me importo mais se ele está ou não por perto. É indiferente. Ignorar não resolveu muito... Dividimos o mesmo taxi na volta. Falamos sobre gostos em comum. Demos algumas risadas.” ela disse sem emoção, economizando palavras.
“Você não atendia as minhas ligações.”
“Falei com você uma vez.”
Encarei incrédulo. Era isso? Uma vez tinha sido o suficiente? Eu estava mesmo sendo tão absurdo assim?
“Pra me dizer que depois nos falávamos.”
“Sim. Não é o que estamos fazendo agora?”
Aquelas palavras mal pareciam pertencer ao meu amor.
“Yasmin, o que aconteceu? Você está estranha comigo desde que fomos ver o seu pai.”
Ela suspirou, como se eu estivesse sendo cansativo “Nada, Derick.”
Isso confirmou o que eu temia. O que ela não estava me dizendo?
“Eu queria ter ficado com você. Foi isso? Mas quando você disse que eu não ficaria, pensei que fosse melhor apenas te deixar passar esse tempo com o seu pai. Sua mãe até me convidou...”
Ao som da palavra mãe Yasmin me encarou com grande ressentimento.
“Não sei se fiz mal passando a noite na sua casa, mas a sua... Sandra insistiu. Ela falou bastante de você.”
Seu olhar estava me atravessando, “Imagino. Ela deve ter sido um amor de pessoa também. Não quero me atrasar para a aula. Depois nos vemos.” seguiu para a sala de aula.
“Espera, Yasmin!”
“Depois, Derick.”
O fim era assim? Porque eu tinha essa impressão. Eu faria de tudo para estar errado.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

13- Graham Greene uma vez escreveu...

“A inocência é uma forma de insanidade.”
“Gostaria de poder ficar...”
“Eu posso imaginar, mas não é permitido. Yasmin ficará bem. Meu marido também. Foi só um susto. Ele ainda não acordou, mas os médicos garantem que logo irá. Deixe a Yasmin com seu pai por essa noite. Amanhã cedo você poderá vê-la. Venha comigo agora... Você também precisa descansar.”
Enquanto o seu motorista nos levava para a mansão dos Campbell, a mãe da Yasmin trocou algumas palavras comigo. Procurando me conhecer mais, imaginei.
Os sentimentos negativos e intensos que a minha namorada carregava a respeito de sua mãe me fizeram esperar o pior daquela mulher com um sorriso deslumbrante; lamentei que a Sandra limitasse tanto seus sorrisos. Talvez por isso tenha me surpreendido tanto com a conversa fácil, seu interesse em me conhecer, em se fazer conhecer. Esperei por hostilidade, mas não veio em momento algum.
Sandra não era o que se pudesse chamar de espontânea. Seus gestos e as palavras que usava pareciam ser sempre cuidadosamente escolhidos. Falava num tom de voz agradável, sem muita pressa, sem muitas pausas, na medida certa. Muito educada. Mesmo que mantivesse uma distancia de intimidade proposital, conseguia não ser arrogante.
Confesso que passei a noite, durante o jantar e enquanto me mostrava a mansão, procurando qualquer ponto que me indicasse o motivo do desarranjo entre mãe e filha. Falhei. Apesar do desconforto, por sentir que era errado, talvez uma traição, simpatizar com aquela jovem senhora não consegui deixar de apreciar muito a sua companhia. Fiquei contente por ter a sua atenção. Quase realizado. O que era estranho. Não entendia o motivo de estar tão grato por aquelas poucas horas ao seu lado.
Antes de fechar meus olhos e dormir visualizei a Yasmin. Sua expressão de pavor ao ouvir a notícia. Uma culpa horrível me cobriu pelas horas que passei sorrindo à toa com sua mãe. A consciência pesada e a preocupação transformaram dormir em uma tarefa muito difícil. Eu precisava vê-la, estar ao seu lado, mesmo que tudo o que eu pudesse fazer fosse estar lá. Como ela estava? Quanto tempo faltava até que pudesse saber?
Não lembro quando finalmente consegui dormir, mas parecia ter sido há pouco tempo quando ouvi o despertador tocar. Meu corpo não queria se mover, meus braços e pernas pareciam pesar toneladas. Eu teria me dado por vencido ao cansaço senão fosse a imagem da Yasmin a invadir a minha mente novamente. Eu precisava estar com ela.
Lavei o rosto e me arrumei rapidamente. Encontrei a Sandra sentada sozinha diante de uma mesa repleta de delícias de todos os tipos. Ela parecia tão confortável com aquele silêncio e vazio enquanto comia. Talvez ela estivesse acostumada àquilo. Não consegui deixar de me questionar em como aquela mulher tão agradável poderia estar em qualquer momento sozinha. Quem não desejaria estar ali... Sim, tinha a Yasmin, lembrei. Talvez aquelas impressões fossem apenas minhas. Lamentei em silêncio, não entendendo o que realmente me deixava tão incomodado com aquela cena.
“Bom dia, Derick! Sente e sirva-se. Depois vamos ao hospital. Meu marido acordou.” ela não parecia ansiosa, tão calma, contida.
Senti um alívio me tomar ao ver a Yasmin sorridente conversando com seu pai no quarto do hospital.
Aproximei-me dos dois. Dei um beijo no topo da cabeça do meu amor e fitei meu sogro. Um homem de idade avançada, muito cansado, mas sem economizar sorrisos juntamente com sua filha.
“Sr. Campbell... Fico feliz em ver que o senhor está bem.”
“Ah, criança, me chame apenas de Vítor. Yasmin estava com medo de que você não sobrevivesse na companhia de minha esposa. Mas pelo visto, ela que não sobreviveu...” disse rindo depois de não encontrar a Sandra no quarto.
“Não... Ela já vem. A recepcionista disse que o senhor já pode ir para casa. Ela está cuidando disso.”
“Eu vou ficar, pai.”
Olhei surpreso para ela, buscando seus olhos, mas ela não parou de encarar seu pai em momento algum, nem mesmo quando cheguei.
“Filha, isso não é necessário. Você tem aulas, não pode faltar. Já perdeu algumas hoje. Se for agora, ainda consegue assistir alguma da manhã.”
“Não, pai. Eu vou ficar. Quem vai cuidar do senhor? Não vou te deixar com enfermeiras... Sei bem que vai querer voltar logo ao trabalho e duvido que possa nos próximos dias.”
Ele soltou uma gargalhada leve “Querida... Papai ama a sua presença, mas não posso deixar que mate aulas por isso. Você pode vir no final de semana. Prometo não tocar em trabalho até que os médicos me liberem.”
“Como se eu fosse acreditar. Vou ficar e fim da história. Uns dias sem ir a escola não vai me prejudicar. Depois vou pegar a matéria com a irmã do Derick.”
“E o seu namorado? Vai perder aulas também?”
“Não. Ele vai voltar.” disse antes que eu pudesse.
Eu não me importava em faltar com ela. Ficar o restante da semana sem a Yasmin... Por que ela não queria que eu ficasse?
“Vou ver se a Sra. Campbell precisa de ajuda em alguma coisa.” disse e me retirei de suas presenças.
Não fui até a Sandra. Procurei outro corredor e sentei-me numa cadeira qualquer.
Nossos amigos, deveriam estar preocupados. Peguei meu celular e encontrei incontáveis chamadas não atendidas deles. Mandei SMS para todos, avisando que estávamos bem e que logo daria detalhes.
“Perdido?” Sandra me perguntou.
“Vim avisar nossos amigos...”
“Soube que você já está de partida.”
Yasmin estava mesmo desejando que eu fosse.
“Sim. Parece que eu já deveria estar a caminho.” suspirei.
“Foi um prazer te conhecer, Derick. Espero que venha nos visitar mais vezes.”
“Digo o mesmo.”
“Se você também quiser ficar, eu posso conversar com a Direção do colégio...”
“Agradeço, mas vou mesmo.”, levantei-me, “Estou indo ao quarto, também vem?”
“Não. Vou ficar um tempo aqui antes. Tenha uma boa viagem.”
Fui me despedir da Yasmin e de seu pai.
“Lamento que tenhamos nos conhecido nessas circunstancias, filho, mas assim que eu estiver melhor, combinamos algo mais apropriado, certo?” Vítor.
Yasmin não se levantou para se despedir, sequer me olhou. Continuou absolvida pela presença de seu pai. Eu sentiria imensamente a sua falta... Talvez a minha também fosse sentida.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

12- Fernando Pessoa uma vez escreveu...

“Se alguma vez sou coerente, é apenas como incoerência saída da incoerência.”
Ele a beijaria? Era em tudo o que a Mariana pensava com seus corpos tão próximos um do outro. Ela queria. Estava esperando por isso. Mesmo que estivesse lutando tão fortemente contra essa vontade, tentando se convencer de que as borboletas dançantes em seu estômago não existiam.
Scott conseguia ver tudo isso tão facilmente que o irritava. Inclinou seu rosto para que seus lábios ficassem na mesma altura.
“Não vai me empurrar? Não vai me bater?” Scott sussurrava, próximo demais, provocando-a com a sua típica arrogância.
Mariana recorreu aos seus lábios com urgência. 
Ele não teve tempo para se surpreender. 
Não conseguiam parar. Mal havia fôlego. Eles podiam sentir as batidas de seus corações martelando contra o peito um do outro. E não podia ter nada pelo que esperassem tanto quanto aquele momento. Nada que pudesse ser mais perfeito do que aquele gosto.
Um som irritante que a Mariana conhecia muito bem surgiu da sua camisa; era seu celular.
 “Ela não atende... Será que eles acabaram indo parar na Direção ou na sala da Elenir outra vez?” Sally especulava impaciente.
“Talvez ela nem esteja com o celular. Ela odeia ter que carregá-lo por todo canto.” Yasmin.
“Vou ver se a encontro na Direção. Vocês dois podem ver na Elenir?” Sally.
Mais tarde a Sally encontrou a Mariana em seu quarto.
Já era noite e eu estava vendo a Yasmin dando suas últimas braçadas na piscina do colégio. Seu celular, que estava comigo, tocou.
“Yasmin, seu celular. É a sua mãe...” gritei, esperando que ela ouvisse.
“O que foi?” perguntou se aproximando da beira da piscina, “É o meu celular tocando?”
“É a sua mãe.”
“Ah... Só falta meia volta. Depois eu retorno. Deve ser pra me lembrar que esse final de semana vou passar com ela. Se o som te incomodar, pode desligar.”
Entristecia-me o relacionamento da Yasmin e sua mãe. Não parecia a maneira como mãe e filha deveriam se tratar. Eu sabia pouco sobre o que as levou a agirem assim uma com a outra, Yasmin não falava sobre isso, só conhecia o que a Sally tagarelou uma vez ou outra há tempos atrás. Queria poder ajudar, mas não me sentia no direito.
O celular já havia parado de tocar quando a Yasmin se aproximou de mim, terminando de vestir seu roupão.
“Ainda temos tempo para comermos alguma coisa juntos. Só preciso me trocar primeiro. Prometo não demorar. Me espera aqui mesmo?” pergunto, enquanto pegava a sua bolsa.
“Não quer falar com a sua mãe primeiro?”
Ela me olhou, não esperando que eu fosse insistir com esse assunto “Depois que eu me trocar. No caminho para o refeitório.” disse com pouca vontade.
Durante o caminho, devolvi seu celular.
“Ah... Já tinha me esquecido...”
Suspirei, “Yasmin, talvez você não devesse mesmo ligar. Sinto como se estivesse te forçando e não quero. Deixa isso pra lá. Desculpa ter me intrometido.”
Ela levou um tempo para me dar uma resposta, “Não. Tudo bem. Estou sendo infantil.” e discou.
O que ela ouviu do outro lado da linha criou uma expressão de terror em seus olhos e me deixou aflito.
“Não. Eu vou... Não precisa. Derick me leva. Vai ser mais rápido.”
Desligou e parecia em choque encarando o celular, com os lábios entreabertos.
Coloquei-me a sua frente, desci minhas mãos pelos seus ombros até as suas mãos, “Yasmin...”, tentei chamar a sua atenção. A sua cabeça ainda um pouco abaixada. Peguei o celular de sua mão e o guardei em meu bolso, com a outra mão puxei suavemente o seu queixo para cima. Lágrimas começavam a cair. Puxei-a para perto de mim, abraçando-a.
“Yasmin, meu amor... O que aconteceu? Está me assustando.” disse, tentando não chorar. Vê-la naquele estado... A sua dor era minha.
“Temos que ir... Meu pai...” seu coração batia com tanta força.
“Pra onde? Pro seu pai?”
Ela se afastou do meu abraço, mas não completamente. Olhou dentro dos meus olhos e respirou fundo, buscando força “Meu pai teve uma parada cardíaca. Já está no hospital a essa altura. Mas... A Sandra está assustada. Não sabe se...”
“Calma, amor... Ele está sob os cuidados de médicos, vai ficar tudo bem.”
“Você não entende, Derick. A Sandra estava chorando. Ela nunca chora.”
Tentei abraçá-la novamente, mas não me deixou.
“Ela já falou com a Direção. Só temos que avisar que estamos indo... Claro, se você quiser ir também. Nem te perguntei... Desculpe.”
“Não, amor. É claro que vou. Posso ir dirigindo o seu carro...”
Ela assentiu.
O silêncio nos fez companhia durante toda a trajetória para o hospital que ficava em Primavera. Três horas de viagem. Normalmente, aquele silêncio não teria me incomodado, mas, devido às circunstâncias, tornou-se insuportável.
“Vocês são familiares? O horário de visitas já foi encerrado.” uma jovem na recepção nos informou.
“Ela é filha do Sr. Campbell.”
“Ah! Bem, nesse caso vou chamar uma enfermeira para acompanhá-la até a sala. O senhor espere aqui por um instante, por favor. A Sra. Campbell me avisou sobre a chegada de vocês.”
Em poucos instantes uma enfermeira apareceu pedindo que a Yasmin a seguisse.
“O senhor é o Derick, certo?” a moça que nos atendeu na recepção perguntou.
“Sente-se, por favor. A Sra. Campbell já está vindo te receber.”
Seria o nosso primeiro encontro. Nem mesmo quando criança havia a visto alguma vez. Yasmin nunca me deixava acompanhá-la ao visitar seus pais. Eu não tinha ideia de como a sua mãe pareceria. Imaginava uma pessoa severa quando uma mulher alta, magra e muito bem vestida apareceu na minha frente abrindo um breve sorriso.
Seus traços me lembravam a Yasmin. Era a sua mãe. Imaginei que fosse encontrar feições cansadas e abatidas, mas ela parecia apenas... Calma.
“Então você é o Derick...”
Deixou seu sorriso se alargar e sentou-se ao meu lado.
“Imagino que deseja ver a Yasmin amanhã, antes de voltar à Almerin. Lamento que não poderá ver o Vítor hoje, mas já pedi que meus empregados preparassem um quarto de hospedes para você passar essa noite. Yasmin decidiu ficar. Estou indo agora, me acompanha?”

sexta-feira, 6 de maio de 2011

11- Anne Louise uma vez escreveu...

"O amor é um egoísmo a dois."
As discussões entre os dois nunca chegaram àquele ponto. Todos na sala estavam boquiabertos. Foi difícil para a professora conseguir seguir com a sala em silêncio; agora eles tinham motivos de sobra para falaram. Camila adorou, já tinha mais matéria para o jornal.
Mais tarde, eu, a Yasmin e a Sally nos encontramos com a Mariana no refeitório.
Ela parecia cansada.
“Você vai ter que deixar as aulas de informática mesmo?” Yasmin.
“Não... Ele também não. A psicóloga resolveu nos dar mais uma chance. Mas agora temos que ter algumas sessões com ela... Pra resolver as nossas diferenças.” Mariana revirou os olhos.
“Eita! Tem isso agora, é?” Sally.
“Porque discutimos durante as outras aulas também. ‘Estamos atrapalhando o rendimento das aulas e precisamos aprender a ser civilizados.’ Era só o que me faltava...”
Já estava quase na hora do dormitório fechar as portas, quando o Scott entrou no quarto. Ele sentou-se na beira da cama. Eu estava me deitando.
“Como você consegue andar com alguém como ela?” ele parecia realmente intrigado e fiquei surpreso que estivesse falando comigo. Desde a primeira vez que nos encontramos no dormitório ele não mais dirigiu a palavra a mim.
Estava procurando alguma coisa para lhe falar que pudesse ajudar de alguma forma, mas não tive tempo. Ele soltou ar pelas narinas, pressionando os lábios, desligou o abajur do lado de sua cama e deitou-se.
Talvez ele não estivesse mesmo esperando uma resposta.
Enquanto todos os meus colegas de sala falavam incansavelmente sobre o que fariam profissionalmente, com o nosso último ano do ensino médio chegando ao fim, eu não fazia ideia. Se eu dissesse que minha a preocupação era em não poder ver a Yasmin com a mesma frequência de agora, o que me diriam?
Sempre amei escrever músicas para meus irmãos, mas, de repente, quando comecei a pensar nisso à longo prazo, isso me pareceu tão pouco... Tinha mais cara de hobby do que uma carreira profissional. Mas o que eu poderia fazer, se não conseguia pensar em nada que gostasse de fazer? Isso me frustrava.
Estávamos todos reunidos no refeitório quando passou um dos responsáveis pelo Jornal CE nos entregando os exemplares.
Na capa “Epidemia de fim de namoro – Cuidado, o seu pode ser o próximo!”, a foto da Raquel jogando uma aliança no André e da discussão Scott x Mariana ilustrava.
Podia sentir a respiração da Yasmin mais intensa e descompassada; não era o meu toque à provocar. Mesmo que eu soubesse que ela já não mais os amava, tinha a impressão de que eles ainda mexiam muito com ela.
“O quê?!” Mariana quase gritou, “O que tem a minha discussão com esse idiota a ver com fim de namoro? Enlouqueceram de vez? A Camila que escreveu isso! Cadê ela?! Vou falar com ela agora mesmo!” Mariana levantou e olhou ao redor procurando pela Camila.
“Doida, tem poucas sessões com a psicóloga ou só quer ser expulsa do colégio mesmo?” Sally puxou um dos braços da Mariana para que ela voltasse a se sentar.
“Mas você acha que estou errada? Ela publicou uma mentira!”
“Sabemos, Mari, mas você está muito nervosa. Melhor se acalmar primeiro.” Yasmin.
Mariana bufou, “Então só vou falar com a diretora. A Camila não me consultou pra publicar isso, também não preciso consultá-la para mostrar isso à diretora. Não tentem me impedir.” Mariana saiu com uma expressão severa no rosto.
Não demorou e estava de volta ainda mais irritada.
“Não me deixaram falar com a diretora. Ocupada. Queriam que eu procurasse a psicóloga Elenir. Rá! Já basta ter que vê-la quase todo dia para fingir que está tudo bem entre eu e o Scott. Falando nisso... Tenho que falar com ele. Vocês acreditam que ele fica me provocando durante as sessões? A Elenir não faz nada, deixa ele ficar me ofendendo. Se ele não parar, não quero nem saber, vou revidar. Por que só eu tenho que me esforçar? Viram ele por aí?”
“Logo ali.” Sally apontou para adiante, “Na mesa com o Luan, aqueles dois gatíssimos e piriguetes penduradas neles. Melsenhor! Eles são mesmo totalmente gatos! Como não reparei antes? Vou com você, Mari.”
As duas foram. As outras meninas saíram assim que viram a Mariana e sua cara de poucos amigos.
Sally preferiu ficar em pé; ao lado do rapaz de cabelos escuros e desalinhados, pele pouco morena, sorriso largo e fácil, lábios estreitos como seus olhos castanhos, ombros largos, braços fortes. Sally soube que ele era exatamente o tipo dela, mais um que facilmente quebraria em pedacinhos seu coração. Mas ela não escolheu ficar ao lado dele apenas pela forte atração, ela queria que o Raffael visse, queria deixá-lo com ciúmes, talvez ele se aproximasse como das outras vezes para atrapalhar... Deu o seu melhor sorriso para o rapaz e sentiu-se arder em raiva quando foi completamente ignorada. 
O outro rapaz ao lado percebeu e não segurou uma gargalhada, enquanto a fitava com seus olhos castanhos. Seu cabelo era baixo e em um tom claro de castanho. Com músculos menos ossudos que seu amigo. Um rosto agradável e boa postura. Sally estava sendo atingida pelo seu charme, mesmo que estivesse sendo um total idiota rindo dela daquele jeito, ele parecia gentil de alguma forma... Talvez fossem seus olhos. Ela não sabia dizer. 
De qualquer forma, nesses primeiros segundos a fizeram odiar a ideia de ter ido acompanhar a amiga.
Mariana tentava raciocinar, o que ela nunca conseguia perto daquele garoto que insistia em confrontá-la. 
Scott não admitiria, mas ele simplesmente estava amando tudo aquilo. Ela estava claramente irritada pela notícia do jornal escolar. Enlouquecê-la sempre que a encontrava era o seu novo passatempo preferido. Como lhe fazia bem não mais rastejar por ela, nem mesmo se preocupar em o que ela poderia pensar com qualquer uma de suas ações. Era simplesmente perfeito. Ele ainda tentava negar o quanto queria beijá-la todo instante, ali mesmo na frente de todos, ele não se importaria. Mas ele já sabia como isso terminaria. A garota tinha um gênio do cão. 
“Você precisa parar de me atormentar, Scott. A Elenir vai nos manter em sessões e só Deus sabe o que mais pode acontecer até que nos expulsem. Estou me esforçando de verdade e agradeceria se você fizesse o mesmo. Porque se for mesmo guerra que você quer... Vai se arrepender.” Mariana disse entre os dentes.
Scott levantou-se, pegou a Mariana por um dos braços e a fez andar com ele até um canto menos movimentado, longe dos olhares curiosos.
Sally tentou impedir, mas o rapaz ao seu lado segurou com força o seu pulso e a alertou para não atrapalhar.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

10- Diderot uma vez escreveu...

“Erram tanto o que suspeita demais quanto o que demais confia.”
“É isso mesmo que você quer?” Sally.
“O que eu quero é sair pelo mundo cantando, mas, por hora, preciso esperar.” Talita revirou os olhos. 
“Falo do Jack...”
“Ah... Finalmente consegui o fim que tanto queria. É como se um peso enorme saísse das minhas costas. Estou melhor do que poderia desejar” mentiu tão bem. Ela só queria poder acreditar em suas próprias palavras.
“Ah, prima! Eu fiz uma bagunça doida me metendo, desculpa por isso. Mas pelo menos agora está tudo bem, né?! Fico feliz...” se a Sally tivesse parado por apenas um instante e prestado atenção de verdade na Talita, ela teria percebido que tinha alguma coisa errada. Mas ela não queria ver que a Talita estava mentindo. Sally só queria poder ter a sua prima animada e corajosa de sempre focada em sua música, e o Jack totalmente disponível para si.
Sally estava tão feliz com o seu mundo no lugar novamente que mal se continha. Deu uma batida de leve na porta do quarto do seu amigo e entrou. 
Jack estava, como o de costume, em sua cama com um violão na mão, dedilhando. Sally não reconheceu aquela música, talvez fosse alguma nova de Fallen Angels; não deu importância. Jack colocou o violão de lado assim que viu a Sally se aproximando e sentando-se ao seu lado. Ela queria dizer o quanto estava feliz, mas isso seria tão insensível e era tão egoísta... Uma lágrima desceu pelo seu rosto; era de alívio. Jack a puxou para si e deitaram abraçados como fizeram tantas outras vezes.
Ele sabia que tinha feito o certo. 
Jack adorava a Talita, mas quando a beijava não era justo com ela que ele estivesse apenas pensando em outra ou tentando não pensar. 
Naquele tempo não tive o privilégio de todos esses detalhes da história, mas também não é como seu tivesse precisado.
Com a banda reunida naquela noite era como se nada houvesse acontecido. As coisas estavam exatamente como sempre foram, ou, pelo menos, era no que todos se esforçavam para acreditar.
O mês de agosto passou às pressas com tantas atividades que tínhamos.
A Talita foi conversar com a diretora, a fim de conseguir liberar os integrantes da banda dos clubes e reforços. Tudo o que conseguiu foi um acordo: se todos eles conseguissem um boletim repleto apenas de A por todo o semestre, então ela não poderia contestar contra seus ensaios no semestre seguinte, tendo em vista que essas notas não poderiam mudar. Claro que isso era apenas para que a banda desistisse dessa ideia, mas Talita era mais teimosa do que isso. E não só ela como toda a banda estava determinada a conseguir. Estudavam e estudavam.

Colégio Elite. Quinta-feira. 16/08/2010. 16:15h.
Estávamos na sala de informática. A única em que eu e o Scott Meyer tínhamos em comum.
“Quando vamos finalmente sair desse básicão, Luciana?” Scott perguntou à professora.
“Prometo que essa será a última, Scott. Qualquer coisa para você parar de reclamar” Luciana.
Mariana bufou, “Que abuso! Se está tão incomodado assim, a porta é logo ali.”
Lá vinha mais uma discussão entre os dois; isso sempre se repetia.
“Pois te digo o mesmo. Tenho certeza que ninguém está gostando desse nível de aula, só que ninguém tem coragem de falar.”
“Ah, claro! E você é o nosso herói, devemos te agradecer por ficar atrapalhando a aula o tempo todo com seus comentários completamente dispensáveis.”
“Vocês dois, por favor, podem parar? Vou precisar desligar vocês das minhas aulas? Porque toda quinta-feira é a mesma coisa.” Luciana.
“Não será necessário, Luciana. Tenho certeza que a Duas-caras vai fazer o favor de se calar.” Scott.
“Professora, desculpa... Só acho que esse inconveniente é o único culpado pelo tumultuo nas aulas.” Mariana.
“Não haveria tumultuo se você simplesmente não ficasse me perseguindo... Você precisa superar isso, está ficando realmente irritante.”
“Ah! Seu ego é um absurdo, garoto! Se enxerga! O perseguidor aqui é você! Preciso mesmo te lembrar disso?”
“Ah, por que não faz esse favor, Mariana? Por que não explica para todos o que me fez tão desclassificado para a sua magnífica pessoa? Ou sobre como foi divertido se aproveitar dos sentimentos do Luan para me deixar com ciúmes? Acho que ninguém está à sua altura nesse mundo, não é?! Você é mesmo uma pessoa perfeita! Compartilhe seus sentimentos conosco, Mariana, se é que você sabe o que é isso...”
“Ok, já tivemos o bastante. Saiam os dois, por favor.” Luciana falou inutilmente, já que os dois esqueceram completamente onde estavam.
“Você sabe muito bem que as coisas não foram assim, Scott. Para de distorcer! A única palhaça nisso tudo fui eu. Não conseguiu me enganar por muito tempo... É isso que te aborrece tanto?”
“É... Pobrezinha...”, ironizou, “Você precisa ser mais sincera com você mesma, Mariana. Foi tudo real e você sabe. Se pra você é mais fácil viver no seu mundinho perfeito deixando o Inconveniente de fora, tudo bem... Mas faz o favor de parar de usar a mesma velha desculpa... Eu agradeceria.”
“Que verdade, Scott? Você realmente esperava que eu pudesse acreditar que me amava enquanto o colégio todo podia te ver desfilando com a Kate pra cima e pra baixo? Não sou tão idiota assim...”
“Ah, Kate de novo... Você não se conforma que ela seja uma pessoa maravilhosa, né?”
Mariana o interrompeu, “Já chega, Scott!”.
“Não. Você vai ouvir! Ela acreditou em mim. Uma amiga que... Se ela estivesse aqui eu não estaria discutindo com você. Ela iria me acalmar e me ouvir lamentar sobre você. Sabe o quanto ela me aconselhou pra não desistir de você? Pra te fazer acreditar que mudei? Sabe por que desfilava com ela pelo colégio? Porque a garota com quem eu queria estar simplesmente me disse ‘não’ um milhão de vezes...”
“Imagino o quanto e como ela deve ter te ajudado mantendo a sua boca bem ocupada...”
“Você não está me ouvindo?! Se quiséssemos mais do que amizade eu não precisava esconder isso de ninguém. Não precisava mentir a respeito. E nunca seria tão desprezível ao ponto de correr atrás de você enquanto isso; Kate jamais se prestaria a esse papel. Você é mesmo tão superficial assim? O que falam, o que parece ser é o que determina as coisas para você? Porque se for mesmo isso, a maior idiotice que fiz na vida foi ter algum dia me apaixonado por você.”
Dois guardas da escola entraram na sala e acompanharam a saída de Scott e de Mariana.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

9- Kahlil Gibran uma vez escreveu...

"Como você punirá aqueles cujo remorso já é maior do que os seus crimes?"
Mesmo que aquelas fotos de quando criança de vestido não tivessem sido capazes de me fazer cumprir as vontades do Scott por muito tempo, ele nunca tardava em arrumar novas ameaças... Imagino como não teria sido pior se eu tivesse estudado com ele, naquele tempo.
Ir para os Estados Unidos foi um alívio para mim. Senti muita falta da minha prima e de meus amigos, mas qualquer coisa seria melhor do que ser chantageado pelo Scott.
Fui obrigado a fazer muitas coisas das quais me arrependo profundamente. Espero que haja perdão para tudo o que fiz.
“Eu lamento...”, Scott sussurrou, “Não vou me desculpar. Se eu fosse me desculpar por tudo que fiz com todos, essa vida não seria o suficiente. Não preciso do perdão de vocês”, disse insolente, “Mas não tenho orgulho do que fiz. Não gosto de ver a sua expressão de medo mesmo depois de todos esses anos. Nem de raiva ou dor nos rostos pelos corredores da escola. Odeio quem fui, mas não posso voltar atrás e fazer as coisas diferentes agora, como também não posso fazer com que acreditem na minha mudança; parei de tentar. Não devo satisfações a ninguém pelo que sou ou pelo que faço, tenho certeza que não sou o único imperfeito”, deu uma pequena pausa, “Vamos passar um semestre inteiro dividindo o mesmo quarto. Se você respeitar o meu espaço, vou respeitar o seu. Você não se mete na minha vida e eu não me meto na sua. Você era um bom garoto, Derick, e não acho que isso tenha mudado, então é melhor que fique fora do meu caminho, porque eu nunca fui um bom garoto e, mesmo que agora tenha meus arrependimentos, continuo sendo quem sou. Não confunda as coisas. Era só isso que precisava te dizer”.
Fiquei por um instante encarando aquela figura de costas para mim. Digerindo todas as suas palavras, tentando não imaginar que tudo aquilo era algum tipo de plano perverso. Era ali com ele que eu passaria todo o semestre, não era como se eu pudesse fugir ou algo assim. Se ele quisesse me fazer algum mal, não precisava dizer coisa alguma. Ele pareceu sincero, então, eu acreditaria nele até que me provasse o contrário. Convenci-me.
Eu estava no quarto com dois Scotts: um que me fez muito mal e outro arrependido por isso. Eu precisava tomar ar. Saí do quarto. Saí daquele prédio. Peguei o celular e disquei; eu só precisava ouvir uma voz.
“Oi, Bebê!” Yasmin.
Funcionou. A alegria em sua voz já me fez sorrir “Oi, Princesa! Como você está?”
“Com saudades... Estou terminando de arrumar as minhas coisas, mas ainda falta tanto. Não vou conseguir deixar tudo como quero hoje, pelo visto. Estou contando os segundos para te ver mais tarde, amor.”
“Também, Princesa...”
“Ainda falta muito pra arrumar aí? Queria poder te ajudar...”
“Ah, não se preocupe com isso. Não tenho tanta coisa assim, faltam só umas bobeiras para serem colocadas no lugar.”
“Sortudo!”
“Não vou mais te atrapalhar, só queria mesmo ouvir a sua voz e saber se estava tudo bem.”
“Como se você me atrapalhasse...”
“Se precisar de alguma coisa, só me ligar, ok?”
“Pode deixar, Bebê!”
Já estava anoitecendo quando fui buscar a Yasmin em sua casa. Iríamos todos para a Narciso’s - lanchonete e nosso ponto de encontro preferido – depois, provavelmente, para a Alpínia, a sorveteria do outro lado da rua.
“Flores? Que lindo!” Yasmin comemorou ao ver o buquê que trazia comigo.
“Que bom que gostou...”
“Amei! Qual é o motivo da surpresa?”
“Te ver feliz.”
Ela ainda segurava as flores quando me arrebatou selando nossos lábios.
“Desse jeito vai receber flores o tempo todo.”
Ela soltou uma risada gostosa, “Meu bobo lindo!”
Durante o caminho à Narciso’s, começou a falar, “Ainda não tive oportunidade de te contar como as coisas ficaram com a sua irmã e tudo mais...”
“Ah! Sim...”
“A Sally me contou hoje.”
Sally ouviu quando as portas se bateram pela a casa, indicando que alguém havia chegado, mas preferiu ignorar. No fundo ela sabia que, independente do que tinha sido resolvido entre a Talita e o Jack, não a agradaria; as coisas tinham mudado demais. Tentou ignorar por todo o restante do dia, mas a curiosidade e a preocupação a venceram.
Talita estava na escrivaninha, com fones no ouvido e fingindo fazer anotações. Seu orgulho ferido latejava. Ela se castigava lembrando das palavras de Jack e da raiva em seus olhos assim que soltou seus pulsos e espremeu os ombros dela contra a parede de uma ruazinha qualquer, “Você passou dos limites!”, sua voz era assustadora, “Foi tudo um erro, você não entende?”. Sim, ela entendia, mais do que jamais desejou. Jack a estava machucando, mas Talita sabia que sentiria falta até mesmo daquilo, de sentir sua pele em chamas, de deixar o Jack a ponto de matá-la; não que ele realmente fosse capaz. 
“Eu não quero sair da banda, mas, se isso for um problema pra você, eu saio.” Jack odiaria fazer isso, mas ele se sentia culpado demais, talvez isso amenizasse.
“Não misture as coisas. Eu levo muito à sério a banda, espero que você também. Se isso era tudo o que tinha a me dizer, já vou indo. Preciso arrumar as minhas coisas.” Talita tinha chegado ao seu limite. Era hora de dizer adeus e só Deus sabe o quanto isso doeu.
Ali, em seu quarto, tentava não pensar em como seria ver aqueles olhos azuis que nunca a pertenceram e fingir que não sentia um buraco no peito e uma vontade absurda de estar em seus braços mais uma vez. 
“Tali...” Sally balançou uma mão na frente de seu rosto.
Talita tirou os fones ensurdecedores de seus ouvidos “Prima...”
Era ela. Sempre foi ela. Talita tinha tanta certeza disso. Jack sempre teve olhos apenas para aquela desmiolada de sua prima. Ela podia fazer a Sally enxergar a verdade, sem deixar margens para dúvidas, mas ela não faria isso; de forma alguma.
“Você está bem?” Sally.
“Claro! Por que não estaria? Estou tentando arrumar uma canção, mas já estou tão cansada... Não está dando certo. Acho que vou só me render ao sono.”
“Ah... Daqui a pouco vou dormir também.”
Talita suspirou, sabendo o que a prima queria “Estou bem de verdade, Sally. Eu e Jack como casal não vai rolar. Nós dois não queríamos isso no final das contas. Foi tudo muito bom, mas já deu. Nossa carga horária escolar vai ficar muito puxada esse semestre e isso sim me preocupa.”